“Se você fotografa Pierluca enquanto ele está fazendo um castelo de areia, não há razão para não fotografá-lo chorando porque o castelo desmoronou, e depois enquanto a Ama o consola fazendo-o encontrar no meio da areia uma casquinha de concha.”
Fui a Feira Literária Internacional de Paraty semanas atrás. Mas não irei falar da Flip. Falarei da coisa mais importante que aconteceu por lá: quando fugi das mesas e eventos para tirar um cochilo no meio da tarde de sexta-feira.
Deitei no quarto, ouvi o barulho de alguém passando pela rua da casa onde estava e quando abri os olhos uma pessoa-fantasma foi projetada andando no teto. Bem na minha frente.
O mesmo aconteceu depois com cavalos e suas carroças, com grupos de amigos conversando e rindo, crianças correndo, idosos andando devagarinho. Olhei para a direita e vi um horizonte com coqueiros como estampa no topo do guarda-roupas encostado na parede.
Uma fresta no topo da janela, impossível de tampar, transformava o quarto em uma câmera escura.
A câmera escura é o princípio da invenção da fotografia: uma caixa com um orifício minúsculo por onde a luz passa e projeta invertida a imagem na superfície oposta. Depois colocaram lente nesse orifício e filme fotográfico na parede onde projeta a imagem. O resto é progresso tecnológico.
Como é a experiência de cair no sono dentro de uma câmera? Ouvir um mundo lá fora e ver sua imagem refletida, invertida, às vezes desfocada diante dos seus olhos mas não poder tocar nada.
“É só você começar a dizer a respeito de alguma coisa: ‘Ah, que bonito, tinha era que tirar uma foto’, e já está no terreno de quem pensa que tudo o que não é fotografado é perdido, que é como se não tivesse existido, e que então para viver de verdade é preciso fotografar o mais que se possa, e para fotografar o mais que se possa é preciso ou viver de um modo o mais fotografável possível, ou então considerar fotografáveis todos os momentos da própria vida. O primeiro caminho leva à estupidez, o segundo à loucura.”
No dia seguinte tentei fotografar o teto mas meu celular não conseguia capturar a sutileza da luz. Todas as fotos saíam uma escuridão total. A ironia de estar dentro de uma câmera e não poder fotografar isso. O rastro desse pensamento me acompanhou nos dias seguintes a esse fazendo surgir outras questões muito mais complicadas e muito mais pessoais.
Por exemplo: o que fotografar significa para você?
Tive relacionamentos em que não tiramos uma única foto e penso que se alguém tiver amnésia, se um disser que nunca aconteceu, vai ser como se aquilo não houvesse existido. Faltará uma prova.
Então em outros relacionamentos produzi intencionalmente registros como indícios inegáveis que existiu amor ali. Naquela foto encostando a cabeça em mim, você me amou. Naquele vídeo rindo alto eu te amei.
No auge de uma crise de depressão prestes a terminar um relacionamento, tirei selfie toda vez que chorava. Não eram fotos bonitas, era eu tentando me dar conta toda vez que abria a galeria do celular que estava chorando todo dia. Depois deletei tudo.
Será que vou esquecer disso algum dia? Será que posso dizer que isso nunca aconteceu? Dizer que esse parágrafo ali em cima foi pura ficção e nunca sofri assim na vida e que sou muito nova para sentir essas coisas todas para logo vocês retrucarem por aqui:
“Mas quem inventaria que passou um mês tirando foto do próprio rosto inchado de choro escondida no banheiro?” Uma pessoa que chora muito e que tem uma leve obsessão por registrar as coisas que vão acontecendo como se pegar a areia da ampulheta fosse impedir ela de virar.
Mas não é só isso. Existe no meu ato de fotografar algo a tentativa de congelar um sentimento. Nesse caso seria a tristeza. Mas é uma farsa. Eu não consigo sentir exatamente as mesmas coisas que eu sentia quando tirei aquelas fotos. Elas por si só já recriaram aquela memória, já transformaram a situação em outra, fantasiaram meu sentimento em lembrança.
Quando fotografo para compartilhar um momento aí fica mais evidente ainda meu engano. Uma foto de pessoas-vulto no teto seria linda mas não transmitiria para vocês a sensação que eu tive de estar testemunhando algo mágico completamente sozinha.
Como se compartilha essa sensação? Como se fotografa isso?
O que será que acontece ao redor de uma foto? Olho atentamente as margens procurando o que escapou, o que o enquadramento do fotógrafo decidiu que não devia entrar na imagem.
Dois anos atrás eu comecei um projeto pessoal que provavelmente não vai dar em lugar nenhum. Resgatei algumas fotos da minha infância quando meus pais ainda estavam juntos e percebi que poucas eram as imagens em que meu pai aparecia porque ele era justamente a pessoa que fotografava.
Não é doido que a pessoa atrás da câmera fique invisível mas ao mesmo tempo imprima sua presença em tudo porque só conseguimos enxergar através da sua perspectiva?
Simultaneamente pouco lembro do meu pai até os meus doze anos de idade. “Recalque” foi o termo técnico que o analista usou, mas glitch foi o termo que usei. Como era possível que a minha lembrança tivesse apagado ele assim, como um erro?
Glitch [problema; dificuldade; empecilho]
Glitch é uma palavra em iídiche – do alemão glitschen, “deslizar”, “escorregar” – que entrou na linguagem da informática para designar um mau funcionamento. Passou para o uso geral para significar qualquer tipo de pequeno problema inesperado que impede o sucesso ou o bom funcionamento de qualquer coisa.
Comecei a provocar glitches propositais nessas fotos escaneadas da minha infância. Dependendo do nível de corrupção da imagem e do quão embaralhada ela fica, somos forçados a tentar adivinhar o que não conseguimos ver. Exatamente o mesmo que acontece comigo quando vejo essas fotos antes, sem glitch nenhum.
Talvez eu tenha conseguido fotografar um sentimento.
[Notas de rodapé]
1. As duas primeiras citações são de um conto bonito do Ítalo Calvino chamado A aventura de um fotógrafo, que está no livro Os Amores Difíceis. O livro inteiro é excelente, fica a recomendação. Você consegue ler esse conto específico traduzido nesse pdf aqui.
2. Tive o prazer de finalmente participar da buraquinha, a newsletter de auto-entrevista que já mencionei aqui antes. Escolhi me fazer três perguntas difíceis: por que eu desenho, se toda arte é política e o que eu faço quando fico nervosa. Pra conferir as respostas, só clicar aqui. Vale assinar e olhar as colaborações anteriores a minha.
3. Uma das minhas melhores amigas, Joana Diniz, conseguiu fotografar dentro da câmera escura do quarto os coqueiros no topo do guarda-roupas. Vê aqui.
