Por muitos anos minha mãe manteve enquadrado e pendurado na parede do corredor perto da entrada do meu quarto, um desenho que fiz aos dois anos de idade composto apenas por círculos em giz de cera marrom. Indecifrável para mim quando adolescente, não conseguia entender a sua curadoria. Um dia ela me explicou que o achava genial pois era a perspectiva de olhar do alto do colo dos meus pais nosso cachorro deitado no chão.
Quando alguém não nos entende, falamos de maneira debochada “quer que eu desenhe?” como se desenhar fosse a maneira mais simples de passar uma mensagem. Mas não é.
Eu comecei a gostar de escrever quando treinava caligrafia aos dez anos. Queria desenhar letras bonitas. Completava folhas inteiras de caderno com a palavra amiga, amiga, amiga, amiga, amiga, amiga em uma carta que nunca chegaria a ninguém. Pensava que com uma letra bonita teria assegurado que escreveria apenas coisas bonitas também. De certa forma, isso ajudou sim a disfarçar todas as coisas horríveis que eu já escrevi.
Fui alfabetizada através dos quadrinhos. Quando nasci meus pais não haviam planejado muita coisa mas tinham as coleções completas de Snoopy, Garfield, Mafalda, Asterix e Lucky Luke. E muita Turma da Mônica, mais do que o suficiente para uma filha única ler durante uma infância inteira sem ter com quem brincar.
As pessoas abordavam minha mãe na rua perguntando se aquele bebê já sabia ler porque olhava tão atentamente cada quadrinho. Estava aprendendo a ler imagens primeiro e depois ler as palavras pelo intermédio dos desenhos. Nunca consegui separar imagem de texto.
Escrever se tornou uma performance mais elaborada, mais refinada e mais artificial do que eu tenho a dizer. Ao desenho reservei um espaço de incompreensão, pouca técnica e quintal do inconsciente. Quase toda ilustração minha começa com um texto longo e reflexivo que é retalhado até sobrar uma única frase essencial, que pode ou não ser incluída na arte final.
Ninguém entende exatamente o que me motivou a desenhar determinada coisa. É possível ser completamente honesta com algo e ainda sim não se sentir vulnerável.
É possível falar o necessário sobre mim e no final ser apenas um espelho para cada um encaixar suas próprias experiências naquilo que eu desenhei.
***
“No começo, meu trabalho representava o medo de cair. Depois se tornou a arte de cair. Como cair sem se machucar. Agora é a arte de estar aqui, nesse lugar.” — Louise Bourgeois
*”In the beginning, my work represented the fear of falling. Afterwards, it became the art of falling. How to fall without being hurt. Then the art of being here, in this place”
Arch of Hysteria (1993), Louise Bourgeois
***
Meses atrás estava pensando em desistir de desenhar quando tive uma discussão com alguém. Na melhor das intenções ele queria me convencer a continuar e eu tentava explicar, sem expor muito, minha dificuldade técnica e emocional para insistir em concluir o que eu ainda quero fazer (no caso, esses dois quadrinhos).
Até que chegamos em um ponto da conversa que tive que garantir que “olha, tudo bem, eu nunca pensei em pagar contas desenhando mesmo”. Ele me respondeu: “achei que você queria trabalhar com isso”.
Eu retruquei: “isso é o meu trabalho mas o meu hobby é o que me paga”.
Se você é uma pessoa que almeja criar coisas, o auge do sucesso não precisa ser necessariamente receber dinheiro por isso. É apenas uma das possibilidades mas nunca foi a minha. Na minha visão anticapitalista, da maneira que eu me relaciono com o que eu faço, o trabalho não dignifica o homem.
E sendo mais ríspida e cruel, o trabalho despreza a mulher.
***
“Eu não tive uma carreira. Eu fiz filmes. É muito diferente.” — Agnes Varda
*“I didn’t have a career. I made films. It’s very different.”
***
Meus amigos não me procuram mais para saber como eu estou mas checam regularmente minhas redes sociais.
Acostumei eles a acharem que tudo que sentir vou publicar instantaneamente e que tudo o que publico é com exatidão o que eu estou sentindo no momento. Então pra que perguntar qualquer coisa? É só ficar online.
Quando posto algo triste, ninguém encontra um emoji apropriado então não me respondem nada.
A gente fica desconfortável nessa consciência de que não podemos resolver o sentimento do outro, não é? Por isso todo mundo desaparece quando algo ruim acontece com você. Não é porque não se importam, só detestam não saber nunca o que dizer.
Mas quem está triste não quer ouvir nada, quer falar. Talvez eu tenha me acostumado a dizer por aí tudo que eu poderia ter contado somente para poucas pessoas porque reconheci muito cedo que colocaria elas em lugares desconfortáveis, então assumi que seria justo se o lugar desconfortável fosse o meu.
Parar de publicar ilustrações e textos durante os dois últimos meses provavelmente foi uma provocação. Ao meu ex, que está interessado em me ler aqui mas não está interessado em fazer parte da minha vida pois saiu dela pulando a janela: passou.
Aos amigos dele, que fizeram questão de catar referências em cada desenho meu e se anunciavam chocados: passou. Aos meus amigos, que me esperavam desenhar para explicar detalhadamente o que eu estou sentindo: passou.
Eu estou feliz.
***
“Temos que suportar a discordância entre imaginação e fato. É melhor dizer ‘eu estou sofrendo’ do que ‘essa paisagem é feia’.” — Simone Weil em seu livro Gravity and Grace
*”We have to endure the discordance between imagination and fact. It is better to say ‘I am suffering’ than ‘this landscape is ugly’.”
Passe de Simone Weil quando ela atuava na resistência francesa ao nazismo
***
“E como é estar feliz?”, meu analista tem perguntado.
É esquisito porque:
a) não sei se mereço me sentir feliz
b) não sei se é pura alienação ou um grande engano
c) não sei se soa como uma ofensa para quem não está
Mas é bom.
E eu quero desenhar sobre tudo o que aconteceu até aqui sabendo que ninguém vai conseguir entender o que são todos esses círculos unidos.
Deixe um comentário